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“A cloroquina é a nova cocaína da extrema-direita”, diz colunista.

A cloroquina é a nova cocaína da extrema-direita. É a droga que deixa a turma alucinada. Afinal, teria aparecido a verdadeira panaceia, o remédio que cura todos os males. Nota: com frequência, o termo é empregado no lugar de “farsa” ou de “falso remédio”. Não! Seria o remédio universal. A palavra também é nome próprio. Panaceia era a deusa da cura, e sua irmã, Hígia, a da limpeza e da… higiene. Eram filhas de Asclépio — em latim, Esculápio, deus da medicina.

Não há comprovação científica, até agora, de que a cloroquina, associada ao antibiótico azitromicina, seja eficaz no combate ao novo coronavírus. Não é que os resultados sejam inconclusivos, restando uma margem razoável de dúvida que recomende cuidado. Por enquanto, não há evidências. Nas mesmas circunstâncias, pessoas que tomaram e que não tomaram a droga foram curadas. E o contrário também se deu: em condições semelhantes, pacientes que se trataram e que não se trataram com a dita-cuja morreram. Entidade de prestígio internacional que chegou a flertar com esse tratamento recuou. Já chego lá.

Recomendar seu uso em larga escala, considerando os efeitos colaterais, seria uma loucura. Hospitais e centros de pesquisa testam a eficácia dessa e de outras drogas. Se e quando se chegar a um uso seguro da substância para que se defina um protocolo, isso certamente acontecerá. No Brasil e no mundo, esse trabalho está em curso. Acontece que estamos da era da fuleiragem, não raro manipulada por pistoleiros ideológicos

Quem primeiro saiu brandindo a eficácia do remédio, quando ainda afirmava que esse tal “coronavírus” era só um “vírus chinês” sem muita importância, que estaria sendo instrumentalizado por seus adversários políticos, foi ninguém menos do que Donald Trump. E ele segue em sua cruzada. Reportagem do New York Times sobre a agressiva defesa que o presidente dos EUA faz do uso da droga informa que ele tem ações da Sanofi, gigante francesa que fabrica Plaquenil, um dos nomes comerciais da hidroxicloroquina.

Uma das acionistas da empresa é a Fisher Asset Management, comandada pelo bilionário americano Ken Fisher, um dos principais doadores de recursos aos republicanos — Trump inclusive. Outro fundo, o Invesco, tem participação na Sanofi e na Mylan, também indústria farmacêutica. Era comandado por Wilbur Ross, hoje secretário de Comércio dos EUA. Em nota, na segunda, Ross afirmou desconhecer que o Invesco investisse em empresas que fabricam o remédio e que ele não tem nenhuma relação com o estímulo para o uso da droga no combate ao coronavírus.

Não parece que isso tudo tenha grande importância. Segundo o site da Forbes, os investimentos de Trump na Sanofi valeriam menos de US$ 3 mil, para uma fortuna estimada em US$ 2,1 bilhões. A Fisher Investments diz ao site que detém menos de 0,7% das ações da Sonofi e que esta representa menos de 0,8% do seu portfólio. Vá lá. A Fischer Investments gerencia mais ou menos US$ 100 bilhões em investimentos: 0,8% do total soma US$ 800 milhões. Um bom dinheiro…

O cientista francês

Estando certos os dados da Forbes, de que Fisher é colunista, parece que não dá para sustentar a suspeita de que Trump esteja numa cruzada por interesses pessoais. Na França, por exemplo, há uma petição com 100 mil assinaturas em favor do uso da cloroquina, associada à azitromicina, como meio eficaz para combater o vírus. A receita milagrosa partiu de lá e leva a assinatura do microbiologista Didier Raoult, diretor do Instituto Hospitalar Universitário (IHU) de Marselha.

Com pinta de malucão, ele fez estardalhaço apresentando o resultado da ministração do combinado em 42 pacientes apenas. Depois de seis dias, ele sustenta, 75% teriam se livrado do vírus. O leitor há de supor que, mundo afora, não seria difícil reporduzir o bem-bolado, não é mesmo? Ocorre que, até agora, ninguém conseguiu repetir o feito anunciado por Raoult. Sua dita pesquisa não obedeceu a nenhum protocolo científico. Como os efeitos colaterais do remédio podem ser devastadores, o governo francês não cedeu à pura experimentação, na linha “se der, deu; se não der, é pena”.

Trump pode não ter interesse financeiro pessoal na cloroquina, mas é fato que ele é essencialmente um negociante, uma espécie de biscateiro. E vê a ciência com esses olhos. Fez a mais estúpida das perguntas quando se trata do uso em massa de um remédio para combater uma pandemia: “O que a gente tem a perder?” Tradução: “Ah, já que não se sabe o que fazer mesmo, vale arriscar”. Bem, parece desnecessário demonstrar a tolice da indagação. Se a cloroquina fosse apenas ineficaz, sem efeitos colaterais, vá lá. Seria o famoso “se não faz bem, mal também não faz”. Mas não é o caso.

A respeitada International Society of Antimicrobial Chemotherapy (ISAC), diga-se, veio a público para afirmar que não endossa as conclusões de um estudo divulgado pelo “International Journal of Antimicrobial Agents”, uma de suas publicações, em favor da associação da cloroquina com a azitromicina. Foi esse artigo que levou Trump a anunciar a cura milagrosa. Basicamente, a entidade sustenta que o estudo não atende às exigências da boa ciência. A Fundação Oswaldo Cruz, no Brasil, ainda não conseguiu chegar à evidência de que a receita seja eficaz.

Bolsonaro

Se é o caso de estimular o uso de um remédio sem amparo na ciência, Jair Bolsonaro não hesita em seguir os passos de Trump. É uma pena que não faça o mesmo quando o presidente americano defende o isolamento social para conter a expansão do vírus. Nesse caso, o brasileiro prefere ouvir alguns mascataes da vida alheia que lhe sopram aos ouvidos que, a despeito de algumas mortes — ele nem quer saber quantas –, a economia não pode parar, como se essa fosse uma contradição, ou uma combinação, aceitável.

A cloroquina virou a sua obsessão. E a extrema-direita, associada à extrema burrice, cada vez mais sinônimos indisfarçáveis, resolveu seguir seus passos. Criou-se por aqui a teoria conspiratória de que há interesse em esconder os resultados positivos sobre o uso da substância com o propósito de paralisar a economia para derrubar o governo do “Mito”.

Em matéria de estupidez, o bolsonariosmo atinge seu ponto máximo. Por que autoridades de saúde do mundo inteiro se oporiam, por enquanto, ao uso em massa da cloroquina? Por capricho? Para derrubar o governo de seus respectivos países? Para torrar a paciência de Bolsonaro? Sim, a cloroquina virou a cocaína da extrema-direita brasileira e, em certa medida, americana, com a campanha destrambelhada de Trump. Por lá, ele quer dar “uma resposta” ao mal que ele mesmo minimizou, temendo eventuais efeitos negativos da crise na eleição deste ano. Afinal, o presidente tem de aparecer como aquele que “faz alguma coisa”.

No Brasil, Bolsonaro entrou na sua alucinada campanha contra o isolamento social e se mostra incapaz de coordenar os esforços federais no combate à doença. Ao contrário: ele se mobilizou para desestabilizar o ministro da Saúde. Como Bolsonaro é Bolsonaro, tentou o caminho da truculência: Trump se comporta como garoto-propaganda da cloroquina e tenta ganhar o aval de especialistas para sem emprego em larga escala. Não encontrou especialista respeitável que tenha comprado a sua tese. Já o presidente brasileiro pensou até em baixar um decreto determinando o uso do remédio. Seu especialista respeitável é Osmar Terra.

Quem aí não quer que a cloroquina — ou qualquer coisa com outro nome, desde que eficaz — mate o vírus? Quantos de nós torcemos pelo fim da prisão domiciliar? Quantos de nós rejeitamos a volta à vida normal? Se e quando a ciência disser que sim, então sim! Trump pergunta: “O que temos a perder?” Resposta: sem o devido cuidado, a saúde e a vida. Que coisa! Nas redes, as milícias bolsonaristas se confundem com terraplanistas, movimentos contra as vacinas e caçadores de conspirações demoníacas. Não é de estranhar que, ao fazer a defesa de um remédio — que pertence, afinal, ao universo da ciência —, ele o façam… contra os protocolos da própria ciência. Texto: Reinaldo Azevedo / UOL

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